Festival Vilar de Mouros

Vilar de Mouros – O Woodstock português

Festival de Vilar de Mouros é um festival de música, que se realizava no verão em Vilar de Mouros, Caminha, Portugal.

É também o mais antigo festival em Portugal e a sua primeira edição foi em 1971. Apenas em 1982 se realizou o segundo.

Criado em 1965 pelo médico António Augusti Barge, o Festival de Vilar de Mouros foi inicialmente um evento de divulgação da música popular do Alto Minho e Galiza, com o objectivo final de transformar Vilar de Mouros num destino turístico.

Em 1968, o festival reuniu a Banda da Guarda Nacional Republicana, com fado e cantores de intervenção: Zeca Afonso, Carlos Parede, Luis Goes, Adriano Correia de Oliveira, Quinteto Académico+2, Shegundo Galarza e alguns grupos de folclore.

Mas foi em 1971 que, e apesar da ditadura, se produziu em Portugal a 1ª grande edição do Festival Vilar de Mouros, e o até então maior festival de sempre no país. O clima de paz, amor e liberdade fez com o que o Vilar de Mouros de 71 fosse considerado, tanto para a critica nacional como para a internacional, como o Woodstock português.

Nos fins-de-semana entre os dias 31 de Julho a 15 de Agosto de 71 cerca de 20 mil pessoas (números não oficiais), de vários pontos da Europa, assistiram às actuações de Elton John e Manfred Mann, os nacionais Quarteto 1111, Pentágono, Sindikato, Chinchilas, Contacto, Objectivo, Bridge, Beartnicks, Psico, Mini-Pop, Pop Five Music Incorporated, Amália Rodrigues, Duo Ouro Negro, Celos, Banda da Guarda Nacional Republicana, Coral Polifónico de Viana do Castelo e o Grupo de Bailado Verde Gaio, abarcando assim o tradicional, o fado, o rock e o pop.

O festival Vilar de Mouros de 1971 demorou três anos a ser preparado, ou seja, foi pensado antes da realização do Woodstock. Os Beatles, Rolling Stones e Pink Floyd foram as primeiras escolhas internacionais. Os Beatles (que iriam custar cerca de 1000 contos) acabariam por se separar antes da contratação. Os Rolling Stones, Pink Floyd e outros como Moody Blues e Cat Stevens não tinham datas disponíveis.

Tal como o Woodstock, o Vilar de Mouros acabou também em grande prejuízo para a organização (cerca de 1000 contos). Só Elton John, que ocupava o segundo lugar do top de vendas de singles em Portugal, recebeu 600 contos, um valor elevadíssimo para a altura.

O único subsídio que existiu foi dado pelo Secretariado Nacional de Informação, 30 contos. Os outros patrocínios prometidos falharam. Ao todo foram gastos cerca de 2500 contos pagos pela família Barge. A RTP, que inicialmente tinha concordado em gravar o festival, recusou à última da hora, provavelmente com medo do regime. Por essa razão, praticamente não existem registos em vídeo do festival.

Um país de brandos costumes acolheu assim pela primeira vez uma espécie de Woodstock, com menos lama, talvez menos droga e mais “tintol”, como se via nas fotografias. Era também a primeira vez que se falava em vegetarianos por terras de boa carne minhota. Uma modernice do grupo pop Manfred Mann, que Isabel Barge, filha do organizador, conseguiu solucionar. Numa pensão de Caminha lá arranjou um prato feito à medida.

A PIDE e um pelotão de 45 homens da GNR do Porto estiveram presentes no festival, mas numa atitude discreta. Registou-se uma única intervenção caricata da PIDE que confundiu a soprano Elisette Bayam com uma imigrante clandestina. Ao contrário das forças policias, a Igreja posicionou-se contra o evento e pedia aos pais que não deixassem os seus filhos ir ao festival por ser organizado por pessoas de “leste”. A família Barge acabou inclusivamente por ser “excomungada”.

No dia 7 de Agosto de 1971, num Sábado cheio de sol, e 2º fim-de-semana de festival, centenas de jovens dirigiram-se a Vilar de Mouros. Com mochilas às costas e à boleia caminhavam em busca de musica “diferente”. As estradas encheram-se de carros impedindo a circulação e nos campos verdejantes de Vilar de Mouros ergueu-se uma “aldeia de lona” onde campistas “tocaram viola, cantaram, dançaram e respiraram ar livre”.

A ordem de entrada em palco dos grupos portugueses foi decidida aleatoriamente. Os Sindicato de Edmundo Falé, Jorge Palma e Rão Kyao iniciaram o festival mas a sua actuação, com musicas de 10 minutos, não agradou ao publico. Seguiram-se os Celos, Pop Five Incorporated, Psico e os Bridge, considerados “um dos maiores espectáculos da noite”. Seguiram-se os muito aguardados Quarteto 1111 – que cantaram em inglês para evitar a censura -, os Pentágono – que iriam actuar com Paulo de Carvalho que desistiu de participar quando soube que a banda iria ganhar 30 contos e ele somente 6 – e os Objectivo. Por fim, os muito aguardados Manfred Mann, protagonistas de um concerto de escassos 45 minutos e muito pouco entusiasmante.

As bandas portuguesas actuaram melhor no 2º dia, fruto da sua inexperiência e “falta de rodagem”. Mas o momento alto da noite estaria a cargo do “showman” Elton John. O artista mais caro do festival, O cabeça de cartaz. O publico ficou extasiado mas mesmo assim não exteriorizou o seu entusiasmo. O que deveria ter sido um encore, à 1ª saída (e afinal única) de Elton John, transformou-se em fim. Sem perceber o que era, o público não manifestou vontade de “um regresso”.

No fim-de-semana a seguir nem o Duo Ouro Negro, nem a Amália Rodrigues conseguiram levar uma enchente tão grande a Vilar de Mouros mas as suas actuações foram consideradas brilhantes. Principalmente Amália Rodrigues, que, já no esplendor da sua carreira, encantou um público mais velho, sentado em cadeiras.

A apatia do público foi a característica dominante do festival. Os jovens não estavam habituados a terem liberdade. Nunca uma tão grande massa de gente se reunira para um evento cultural. A censura e a possível repreensão estavam sempre eminentes. O amadorismo das bandas portuguesas e os longos intervalos entre as actuações também provavelmente contribuiram para essa “apatia”.

Tito Lívio escreveu: “Vilar de Mouros foi a constatação de uma incultura musical, quer pela escassez de apoio do estado, quer pelo amadorismo dos conjuntos portugueses, quer ainda pela mentalidade carneiral da maioria dos espectadores presentes”.

Em contrapartida, o bom comportamento do público, tal como em Woodstock, tornou-se o aspecto mais positivo do festival. Os jovens presentes em Vilar de Mouros deram um exemplo tremendo.

Em 1982 Foram nove dias com U2, The Stranglers, Carlos Paredes, Jáfumega, entre outros.

António Barge morreu em 2002. O criador de Vilar de Mouros não organizou mais festivais, mas esteve presente nalgumas edições. Entre 1999 e 2007 houve festival, até que a autarquia e a PortoEventos se desentederam. Pode ser que um dia o festival regresse.

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